Vinícolas mudam foco para ampliar vendas
Visualizado 264 vezesPatrícia Comunello do Jornal do Comércio
As vinícolas gaúchas, que respondem por mais de 90% da produção nacional do setor, apostam no aumento da demanda doméstica e do público jovem para ultrapassar a marca tímida do consumo de 1,9 litro da bebida por habitante no País. A expectativa ganha reforço com a lei seca, que impôs alcoolemia zero na direção, e eventos e grupos voltados a fomentar o conhecimento e hábito de ingerir vinho, como as confrarias. Marketing dirigido e segmentação de linhas de produtos são apontados pelas indústrias como medidas para inverter a queda de 12,8% na comercialização do produto nacional no primeiro semestre, que chegou a 35% nas variedades viníferas.
Pesquisa sobre o perfil do consumidor indicou que a população de até 39 anos responde por quase 50% dos apreciadores e que a emergente espumante, com 24% da preferência, já encostou no vinho branco, que concentra 26% do público. A variedade tinta continua sendo a campeã dos tomadores. A pesquisa foi feita no primeiro semestre pela empresa Two for Us, por meio do site www.vinhovirtual.com.br, especializado no tema. A sondagem indicou ainda que 43% das pessoas consomem o produto entre dois a três dias da semana e que 12% dos apreciadores já integram confrarias da bebida. O diretor-executivo do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin), Carlos Paviani, ponderou que para uma consulta feita pela internet os resultados confirmaram o perfil geral já identificado pelo mercado. Paviani destacou o dado de que 20% dos consumidores preferem as marcas nacionais, mas indicou que 80% optam pelo importado. “A liderança brasileira atesta a percepção sobre o aumento da qualidade da bebida, mas a supremacia dos estrangeiros revela o efeito devastador da concorrência”, compara. Nos últimos seis anos, as marcas de fora saíram de uma participação de 48,8% na comercialização, em 2002, para os atuais 75% das vendas de vinhos finos no País.
Para sobreviver ao adversário externo e derrubar a concorrência desleal de falsificações, o setor vinícola lançou recentemente movimento e negocia medidas com o governo federal, como leilões de 100 milhões dos 300 milhões de litros dos estoques atuais. Para o Ibravin, a lei seca é oportunidade e deve ampliar as vendas em auto-serviço, que caracteriza o consumidor que compra garrafas no supermercado para beber em casa.
O levantamento eletrônico indicou que 79% dos consumidores são homens e 21% mulheres. Paviani aposta que a fatia feminina seja maior. Entre as 200 confrarias existentes no Brasil, o dirigente diz que já foi criada a Federação Brasileira das Amigas do Vinho e Espumante, com sede no Estado. A Two for Us também identificou que 84% da população que ingere vinho e similares está no Sul e Sudeste. A Cooperativa Aurora confirma que Rio Grande do Sul e São Paulo respondem 50% do consumo.
Miolo identifica alta de 38% em segmento
O consumo do chamado auto-serviço mostra fôlego, tanto que no primeiro semestre foi o segmento que mais cresceu, com uma alta de 38%. O diretor nacional de vendas da Miolo, Márcio Bonilha, percebe o efeito da lei seca neste avanço, e atribui o resultado à atuação junto a consumidores iniciantes até os mais exigentes. Com 70% do faturamento entre os mercados do Sudeste (40%) e do Sul (30%) e 16,7% do segmento de vinhos finos nacionais, a vinícola aposta em crescimento de 20% no faturamento deste ano frente os R$ 70 milhões do ano passado, saindo dos 6 milhões de litros em 2007 para 7 milhões em 2008.
Bonilha ressalta que o potencial de crescimento do consumo é muito grande e que o foco deve continuar sendo a qualidade. “Esse é o diferencial e muitas vinícolas estão firmes neste sentido”. A escalada das espumantes, com alta de 30% na comercialização da Miolo, explica também a boa fase. Enquanto o setor cai em vendas, a Miolo fechou o primeiro semestre com aumento de 22%.
A Cooperativa Aurora foca nas espumantes para recuperar queda de vendas. O diretor comercial da cooperativa, Alem Guerra, informa que a procura pela bebida cresceu 10% no primeiro semestre, enquanto a dos vinhos finos caiu 2%. Em 2007, as espumantes lideram no desempenho, com alta de 29%. A meta é elevar a venda para 1,8 milhão de litros a preços quase inalterados. A Aurora, com produção de 36 milhões de litros de vinho, sucos e derivados, aposta em hábitos como espumante em eventos e maior consumo de jovens em alguns tipos de bebidas com teor alcoólico reduzido.
Receita Federal reduz em 50% o IPI sobre o vinho
As pressões e reivindicações do Movimento em Defesa da Uva e dos Vinhos do Brasil começaram a surtir efeito. Após a realização de diversas audiências, reuniões e encontros entre o governo e os vitivinicultores alguns pleitos do setor já estão sendo atendidos. A primeira ação concreta do governo federal foi a realização de um leilão eletrônico de 4 milhões de litros de vinho destinados para escoamento aos estados das regiões Norte e Centro-Oeste do País, promovido no dia 30 de julho. Agora, uma nova manifestação de apoio à vitivinicultura nacional foi dada pela Secretaria da Receita Federal através da publicação da Instrução Normativa 866/2008 que reduziu o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) incidente sobre o vinho.
Com a redução de 50% do IPI sobre o vinho, que representa uma queda de 10% para 5% da alíquota, o Movimento em Defesa da Uva e dos Vinhos do Brasil vê um de seus principais pleitos atendidos. Embora a redução da carga tributária seja uma reivindicação antiga do setor, a medida foi avaliada como positiva pelas lideranças do movimento. “Estamos vendo que o impacto de nossas ações junto ao governo começa a dar resultados e isso nos motiva a continuar buscando o atendimento de nossas reivindicações”, destaca o empresário Júlio Fante.
De acordo com o presidente da Câmara Setorial da Uva e do Vinho, Hermes Zaneti, a redução do IPI indica a boa vontade do governo federal em atender a um dos pleitos principais do movimento. Contudo, ele espera que este seja apenas um primeiro passo no caminho para a adequação da carga tributária incidente sobre a bebida. “Nesta área temos várias reivindicações, inclusive, aumentar o IPI sobre bebidas como sangrias e coquetéis que não são vinho e não têm razão nenhuma para serem comparadas com o vinho”, ressaltou.
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