O Brunello da discórdia
Visualizado 176 vezesRevista EXAME
Com pouco mais de 5 000 moradores, a minúscula e montanhosa cidade de Montalcino, no sul da Toscana, é a capital do vinho italiano. Foi lá que nasceu o Brunello, tinto considerado o ícone máximo da enologia local. Além de ser um dos melhores vinhos do mundo, o Brunello é um dos mais caros — no Brasil, algumas garrafas custam 3 500 reais. Tudo na cidade gira em torno do Brunello, das lojas ao turismo. Seus moradores falam com orgulho das tradições do vinho: para obter a certificação de um Brunello, o produtor precisa obedecer a uma miríade de regras. A principal delas é utilizar apenas a uva sangiovese, típica da Itália, na produção do vinho. O envelhecimento em barris de carvalho por no mínimo quatro anos é outro pré-requisito. E a lista continua. Nos últimos meses, porém, o orgulho dos moradores de Montalcino foi abalado por um bafafá que colocou a reputação de seu principal vinho em risco. Segundo uma investigação policial efetuada por autoridades locais, alguns dos principais produtores da cidade vinham adulterando seus Brunello, seja com uvas trazidas de outras cidades da Itália, seja pela mistura com vinhos de quinta categoria. Tradicionais produtores, como Antinori, Frescobaldi, Argiano e Banfi, estão envolvidos no escândalo. Mais de 1 milhão de garrafas da safra 2003 foram apreendidas pela polícia e repousam num galpão da vizinha Siena. Não se sabe se as garrafas estão armazenadas na posição horizontal.
Escândalos envolvendo a falsificação de vinhos nobres são freqüentes. Um produtor da Toscana foi preso por vender vinhos de mesa em garrafas de Chianti, outro ícone local. Em 2006, uma das mais famosas produtoras do francês Beaujolais, a Les Vins Georges Duboeuf, foi acusada de misturar vinhos ordinários com seus tops de linha. O que diferencia a polêmica do Brunello das outras é a magnitude do trabalho dos falsários. Nada menos que 100 produtores foram investigados pelas autoridades. Por essa razão, os Estados Unidos ameaçaram suspender todas as importações de Brunello — e, temendo uma crise ainda maior, o governo italiano retirou da associação de produtores de Montalcino a incumbência de conferir a classificação de origem dos vinhos. Os americanos, então, recuaram. E, numa atitude histórica, a vinícola Banfi aceitou retirar a classificação Brunello di Montalcino de seus vinhos investigados. Os Banfi afirmam que a decisão não é uma confissão de culpa. Pouca gente acredita.
Os falsários do Brunello de Montalcino são separados em duas categorias. A primeira é formada por vinícolas menores, com propriedades mal localizadas e que precisam comprar uvas de outras cidades para aumentar sua produção. Nas últimas décadas, a produção de Brunello se multiplicou, tornando impossível garantir um padrão de qualidade às mais diferentes vinícolas. Na década de 60, Montalcino tinha apenas 15 produtores e 150 000 garrafas eram comercializadas por ano. Em 2007, já havia na cidade mais de 250 vinícolas produtoras de Brunello e quase 7 milhões de garrafas são vendidas por safra. Para diminuir a ira dos críticos, o Consorzio del Vino Brunello di Montalcino disse a EXAME que há a intenção de reduzir a produção. "Estamos pensando em diminuir a quantidade anual de Brunello permitida por lei", afirma o presidente da entidade, Patrizio Cencioni. Ainda não se sabe, porém, como isso seria feito — e, principalmente, como será decidido o que tem qualidade para ser Brunello e o que não tem.
A outra categoria envolvida no escândalo, porém, é movida por uma questão mercadológica. O uso de 100% de uva sangiovese faz do Brunello um vinho extremamente ácido, o que não facilita sua comercialização em tempos de vinhos frutados e potentes, como os do Novo Mundo. Os especialistas recomendam que uma garrafa repouse intocada por pelo menos cinco anos para que a acidez diminua e o vinho se torne mais palatável. Num mundo dominado por vinhos jovens, esse é considerado um entrave. Há alguns anos, os produtores locais se dividem entre os tradicionalistas e os modernizadores. Os primeiros são liderados por Jacopo Biondi Santi, herdeiro da mais tradicional vinícola da região (que também inventou o Brunello, no século 19). Eles defendem o respeito às regras consagradas. "Não produzimos vinhos fáceis. Produzimos vinhos para envelhecimento", diz Giacomo Neri, da Casanova di Neri, cujo Cerretalto safra 2001 ganhou 100 pontos (o máximo possível) da revista especializada Wine Spectator. Já outros produtores brigam por uma flexibilização das regras — para tornar o Brunello mais afeito ao gosto do consumidor internacional. Por isso, misturam uvas como merlot e syrah, que ajudam a aplacar a acidez da sangiovese. O consórcio dos produtores, em reunião realizada em outubro, reafirmou os princípios da produção de Brunello: 96% dos participantes votaram dessa maneira. Aos 4% restantes, o jeito vai ser seguir a maioria — ou continuar falsificando.














